– Parte I –

É preciso três coisas para o teatro existir: plateia, ator e personagem. Hoje quero falar do terceiro. Começando por simplificar o significado: personagem é o papel desempenhado pelo ator ou atriz numa história.  

Algumas pessoas acreditam que os personagens escolhem os atores e outros o contrário. Qual é o mais correto? Quando um personagem pode escolher um ator? Há mais do que uma resposta para essa pergunta, mas quero falar sobre isso de acordo com minha experiência.  

Realizei inúmeros espetáculos. Nunca houve uma regra, embora gostava de acreditar que o controle das escolhas estava em minhas mãos, como diretora de espetáculo.

Diretores de espetáculos tem essa mania: o desejo do controle intermitente.

Mas apercebi-me, com o tempo, que era uma ilusão. Não há fórmula para o sucesso, como qualquer coisa nessa vida. Tem que arriscar.

Em algumas montagens deixei livre a escolha de personagens e o resultado foi positivo, o grupo chegou a um consenso: fulano fica com tal personagem por causa disso, ciclano fica com esse por causa daquilo, e assim por diante. Mas, na maioria das vezes, isso não resultava, porque mais de uma pessoa desejava o mesmo personagem. Os ensaios seguiam, os atores iam se revezando até que o personagem se encaixasse, e então a paz reinava, aparentemente.

Admito que foi raro, as pessoas, mesmo que percebam que não lhes pertence, insistem e resistem. A teimosia tem dois lados: o bom e o ruim. Atores são pessoas sensíveis, mesmo parecendo leves e espontâneos, é a profissão que trabalha com as emoções, que as experimenta intensamente e a luta de egos é muito presente. Generosidade é uma virtude.

Ser generoso no teatro significa deixar o outro brilhar, dar à luz o outro.

Essa é uma dificuldade em todos os setores da humanidade: permitir que o outro brilhe mais que nós mesmos.

Sim, o personagem pode escolher-nos e podemos lutar contra isso, mas também podemos escolher o personagem e temos que lutar por ele! É uma questão intuitiva, muito sensível. Mas também pode ser uma questão de técnica, quando as criações se tornam automatizadas. Quando temos o mesmo ator/atriz a fazer mais do que um espetáculo ao mesmo tempo e, apesar de serem obras diferentes, temos a impressão de que a representação é semelhante.

Personagens que se destacam na TV, no cinema ou no teatro certamente tem por trás um trabalho árduo de dedicação quase exclusivo do profissional. Alguns fazem até “laboratório” do personagem, que nada mais é do que experienciar o mundo do personagem, mergulhar numa experiência semelhante à dele, sentir-se, tornar-se. Mas, infelizmente, como em muitas profissões, é preciso trabalhar em mais de um projeto para melhorar o rendimento salarial, e exclusividade se torna luxo somente para alguns.

Vou contar-te então a história de minha primeira aluna. Começou a fazer teatro comigo quando estava no primário. Já tínhamos feito algumas peças pequenas e agora ela estava no secundário.  Ela foi a árvore do espetáculo! Um personagem que ninguém queria, muito menos ela.

Sempre fui intuitiva e teimosa. Se achava que poderia dar certo de tal forma, seguia cegamente acreditando no sucesso. Assim fiz com as escolhas dos personagens no decorrer dos meus quase trinta anos como professora/diretora de teatro. Às vezes era o que o aluno precisava naquele momento, às vezes era o que seria bom ele encarar, às vezes era o que precisava ser mais sublinhado na sua personalidade, às vezes era…por qualquer outra razão nenhuma razão, apenas foi.

Sempre adorei peças infantis e decidi escrever e montar uma. Havia muitas personagens: crianças, anjos, animais, criaturas fantasiosas e UMA ÁRVORE que falava: era a ALMA DA FLORESTA. Claro que a minha árvore não saiu do lugar, não se mexeu e ficou sempre no local. A atriz devia estar com um fato de espuma em forma de árvore, só com a cabeça pra fora e os braços levantados, que seriam os ramos.

Ninguém queria esse papel.

Alicia, nome que escolhi para esse relato, foi uma criança muito ativa, que nunca parava em silêncio. Estava sempre a inventar alguma coisa, gostava de sentar-se no meu colo, chamar a atenção e deixar claro que ocupei o espaço. Destacou-se em jogos teatrais com facilidade na adolescência, muito espontânea e criativa. A sua energia inesgotável foi algo que surpreendeu. Na distribuição dos papéis, cada um que recebia fazia a festa. Quando anunciei que Alicia faria a ÁRVORE, primeiro veio o silêncio total e depois os risos. Não estavam a acreditar que escolhi a rapariga mais ativa da sala para desempenhar um papel imóvel, com falas distantes umas das outras. E Alicia caiu num grito intenso!

Será que cometi um erro ao escolher Alicia?

Acompanha o Bué Fixe e descubra na parte final do artigo…

Abraços demorados

Tanise, a Diva. 

😃🌻

Tanise A Diva

Tanise A Diva

Uma vida com a arte/teatro no Brasil e hoje vivendo com a família em Portugal. 🇧🇷❤🇵🇹 Insta: @tanise_diva

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